Roger Tonon e Luciana Godri contribuem escrevendo o capítulo 4 da Obra: Psicologia e Questões Sociais Contemporâneas - Trabalho, Organizações e Subjetividade
Organizadoras: Camila Brüning, Gislei Mocelin PolliCapítulo 4 - O FARDO DOS HERÓIS BENEVOLENTES: IMPACTOS PSICOSSOCIAIS DA ABNEGAÇÃO EXTREMA, Luciana Godri / Roger Tonon, p. 97
O estudo das questões sociais contemporâneas é essencial para a Psicologia, especialmente ao considerar as determinações sociais do sofrimento psíquico e o compromisso da profissão com a construção de uma sociedade mais justa. No Brasil, a exploração, violência, discriminação e desigualdades de classe, gênero e raça continuam a impactar profundamente a realidade social e o mundo do trabalho.
Os desenvolvimentos tecnológicos vêm mudando as formas de trabalhar, gerando preocupações, tanto pelo potencial de exacerbar desigualdades existentes quanto pela falta de regulação adequada para proteger os direitos dos cidadãos. A crise migratória, que se assevera em todo o planeta, também se faz presente no país. A resposta inadequada a esses eventos evidencia a falta de políticas públicas eficazes e a necessidade urgente de ações sustentáveis.

- Abnegação extrema. O fardo dos heróis benevolentes: impactos psicossociais da abnegação extrema. Luciana Godri / Roger Tonon, p. 97
Resumo: Não há dúvida de que a fome e a falta de teto são dores físicas experimentadas pela população de rua espalhada pelas esquinas de toda grande cidade do mundo. Nem que a dor social da rejeição e da invisibilidade são uma realidade para aquele perambula de marquise em marquise. Mas nosso estudo revela que também há dor e sofrimento psicossocial para o indivíduo que escolheu dedicar seu tempo e esforços, quando não toda sua vida, para estender a mão a essas pessoas. Ainda que amparados pela aprovação social, por praticarem o bem, protagonizando o papel de servidor do mais necessitado, esses homens precisam lidar com suas infrutíferas investidas à médio e longo prazo. Alimentam uma centena de pessoas com as marmitas que levam numa noite, mas vivem a angústia de que aquele indivíduo estará ali desprezado na noite seguinte. E então, procurando dar passos maiores, acolhem tais pessoas em situação de rua nas suas casas, com objetivo de auxiliar na reinclusão da sociedade. No entanto, o exercício etnográfico com descrições de experiências antropológicas do cotidiano junto à essa comunidade religiosa de homens que deixaram suas vidas para viver esse exercício do "amor aos pobres abandonados de rua", mostra que os membros sabem que a "saída definitiva" das ruas é quase nula, algo que leva a um questionamento institucional e/ou a uma crítica da tentativa de manutenção daquilo que é considerado a essência da fraternidade. A análise do campo acaba por expor uma série de crises causadas pelas percepções entre o ideal e o real, numa dicotomia que descortina dramas pessoais que envolvem dilemas morais, ideológicos e vocacionais que se manifestam como um sofrimento psicossocial diante de um sentimento de impotência frente à realidade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário